domingo, julho 23

Estar é ser


Às vezes não sei porque escrevo, nem sei muito bem sobre o que penso
Por vezes sinto-me como um intervalo íntimo de mim mesmo
Um som estático que me empurra para uma frequência mínima

Que se foda

Por muito breve que me sinta, profunda é a opinião de estar presente
Estar assim tão conciso propicia-me estar deitado no fundo do tempo
Estar…
Estar, é ser
Ser a substância deste particular eco
Ser inteiro com o mundo

Ser é caber

As aparências apagam-se
Na espuma branca deixada por uma onda que se vai
O tempo acaricia
Tudo é harmonia

sábado, julho 22

Nasce do esquecimento



Se realmente guardo coisa que seja, prendê-la não é opção
Antes oferecê-la na paz de um sonho largo, enquanto não morro
Passei uma vida a desejar essa persistente adolescência em segredo
Tão acesa em tão surpreendente fragilidade emproada
Amo a tua integridade delicada, desde que nasci
Por ti esperou um peito que esperava latejar
Doido por entoar a sua mais imprudente chama
Ansioso por derramar a sua chuva em pétalas de prata
Amo a aparência nua que se ergue no horizonte da minha língua
O cabelo que descai no ouro de ao longe o ver
Amo o sorriso dessa distância, que no umbigo principia
Que na vertigem do meu olhar faz nascer mais um dia

Amo...
 

Até debaixo d'água



Sou cúmplice.
E sempre o fui sem saber sê-lo - muitas vezes sem sequer reconhecê-lo.
Não importa. A minha cumplicidade é feita de silêncio. Não faz alarido nem tenta fazer-se notar. É tão humilde quanto cada pequena coisa que a faz alegrar.
Cumplicidade é amar, é fechar os olhos e deixar-se levar. É sentir sem se saber explicar. É dar muito além do querer. É pertencer.

Sou cúmplice… o abrigo distante, no qual tu podes simplesmente ser. 

quinta-feira, julho 20

Onde está a minha calma?



Ó foda-se! Mas porque caralho nem o entardecer me acalma, quando sempre fui calmo?
Porque é que sempre fui calmo?
Será que fui porque desde sei lá eu quando, tive olho para a imensidão e multiplicidade de todos os males com vontade funesta de me seduzir, ou, simplesmente porque raramente me quis acompanhado nesta vida das coisas pequenas?
Terei eu sido assim tão descrente ao longo de todo este tempo, usando o pessimismo como motor de arranque para um qualquer ideal?
Por outro lado, ainda me lembro de me ter avisado sobre as expectativas, obrigando-as a falarem sempre baixinho, de modo a não acordarem o bicho-papão.

Eu… que sempre fui calmo, porque é que não me acalmo?

quarta-feira, julho 19

Nem o entardecer me acalma...


Coisas da alma



“A carne é cinza, a alma é chama” escreveu Victor Hugo, o tal da obra Les Miserábles.
Pois é Vitinho, a alma o fogo não destrói.
Permite-me falar-te da minha, mesmo que pouco ou nada te interesse, afinal, bem sei que te parece outra, separada da tua.
A minha, portanto, envolve-me a carne - esta matéria que sempre foi pó. A minha é uma constante exalação – um hálito irrequieto, de génese dorida e delirante. Tão sensível que do Universo lhe sente a puta da vibração.

Permite-me neste entretanto perguntar-te: porquê a súbita afeição ou aversão entre duas almas, que se tocam muito antes da matéria comunicar?

Eu, nem sempre sei explicar tudo o que sinto e não me aflijo. Neste momento interessa-me mais sentir a alma como algo exterior, uma espécie de luz ou fluido que este corpo em secreta decomposição envolve.
A alma é visível e todos nós a vemos, quando queremos.

Outra pergunta: Será o amor a impregnação desses fluidos, dessa névoa delicada, moldando uma só alma?

terça-feira, julho 18

O lobo que foi homem



Carlos Drummond de Andrade, escreveu que só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo, e Fernando Pessoa dizia que não tinha tamanho.
Eu digo que sou do tamanho daquilo que consigo suportar. Eu não sou homem, o homem é escravo. Eu sou um lobo entre carneiros. Sou a lógica no meio dos sofismos. O pesadelo constante dos paralogismos.
Faz sentido perguntar, porque caralho se autoavalia tão caro o homem, para se vender a troco de quase nada!

Afinal… o homem é homem para quem?

domingo, julho 16

BURNING heart



Porque eu sei o que é. Sei como é e porque é.
Não se trata de egocentrismo nem de casta alguma de vaidade. Na verdade, é sim o medo que nos consome durante toda a vida. Na realidade, é sim a nossa incessante busca de respostas.
O paraíso e o inferno existem efectivamente, não nas coisas ou nos outros, mas sim dentro de cada um de nós. É em cada um de nós que vive o monstro que nos atormenta em pesadelos.
Tal como a própria melodia canta… és tu contra ti – o paradoxo que nos faz continuar.
Dentro de cada um de nós, existe mortalidade e imortalidade – tememos com uma e desejamos com a outra.
A coragem não significa ausência de medo. Significa sim aquilo que fazemos, com ele dentro de nós.

Não importa o tempo que passo encostado às cordas. Importa sim o quanto aguento.