quinta-feira, maio 11

Leva-me daqui (quase rábula)



De hoje quero a noite.
Reúno-me por aqui com as palavras. Brindo-as com a arcádia dos meus ossos.
Reparo em todas um olhar casual, como que me concedendo predicados para que me abonem de alguma forma - uma atitude distinta de caracterização que até me seduz (o estado de espírito evidentemente).
O único que transpiro quase sempre, inadvertidamente, confesso, é… romântico. Tão naturalmente.
As palavras, trajadas de clemência, não me conseguem a distinção. Prelúdio inacessível portanto!
Lá lhes vou sorrindo, subtilmente, em tom de apatia fina e sensata, permitindo-nos à luxúria do desprezo do tempo. Inebriam-se vagas ironias, partilhadas numa sensação difusa à própria lucidez do entendimento. Gera-se aqui um estranho fascínio!
Brilham-me… elas as palavras. Nos meus olhos obviamente, ocasionando-me embrutecer numa espécie de fixação ébria.
Mais difícil que falar para tão requintada plateia terá sido a visão das pernas traçadas daquela palavra fêmea, ali! Uma sedutora tão convincente quanto fatalista, nesciamente curvilínea, densa e aromática.
Dou por mim a engasgar a coerência entre a ideia e a voz, uma contingência repentina e deveras reveladora.
[Embaraço apenas por ela reparado]
Sou convenientemente salvo pela impaciência de uma outra palavra que há muito aguardava obstar-me a retórica. Concedo-lhe assim a devida atenção, com um olhar improvisado… ou talvez não.
Sinto um delírio na concentração. Algo me divide, convergindo-me intimamente à monomania angariada, mas lá vou conseguindo manter-me, numa postura minimamente digna e afinal, merecida pela minha actual interlocutora.
Sorrio-lhe em concordância, evocando a pluralidade da razão. Sempre me desviei da disputa gratuita, da culpa generalista e da móbil absolutista.
Faço rir a plateia com associações pitorescas, cantarolando-as em sotaque estranho e divertido.
Cruzo os braços e encolho os ombros, recriando um vocábulo corporal. Recebo um aplauso breve e tácito da já referenciada conquistadora, agora de lábios brilhantes, humedecidos pela envolvência quer circunstancial, quer intelectual.
Os meus olhos postos nos dela, decifrando-lhe querer-me de olhos cerrados, tão cerrados quanto os dela, concorrendo as nuvens no caminho de casa.
Uma casa qualquer.

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