sexta-feira, setembro 1

Out of reach



“Tu estavas bem”

Eu estava num mundo perfeito. O meu, onde tudo era simples e fácil, afinal, era apenas eu. 
Aprendi e aperfeiçoei-me. Tornei-me um gigante. É fácil sê-lo, quando não há mais alguém.
Ninguém me podia fazer mal. Nem bem.

A resposta era…
Não sou feliz, porque não quero. Não sou infeliz, porque não posso.
Mas porquê?

Com o tempo constatei que, eram as misérias em comum que aproximavam os seres humanos. Os afectos, ou a ideia que cada um faz deles, eram na verdade sintomas de insuficiência, um reverbero de insustentável carência. Males do coração, sabes.
Ora… para grandes males, grandes remédios e nada como cortar o mal pela raiz. Amarra-se e fecha-se o coração, hermeticamente, à guarda da razão.

Eis uma mente em imparável ascensão!
“Foda-se, tens razão” diziam-lhe assiduamente. Tanto o ouviu que, um dia, vislumbrando a sua própria figura reflectida numa superfície brilhante, a si mesmo exclamou, “pois tenho… mas, para que me serve a razão!”. Ainda se perguntou “o que faço com ela?”

Pobre filho do silêncio, que nem Pitágoras, o seu amigo, lhe valia fosse lá como fosse. Nem este nem nenhum dos outros, mortos ou vivos.
Mas o que pode demover aquele que nada precisa? Só um outro nada.
Passou então a ambicionar sê-lo. Simplesmente deixar de ser.
Sorria, se alguém lhe confessasse que não podia nele acreditar, perguntando-lhe como podia alguém que nada precisa, amar o que quer que fosse.
Que ame, quem queira ser feliz - retorquia com escárnio.

Bastava-se a si mesmo, às vezes até mais da conta e, nunca percebeu que assim se bastando, de nada mais desfrutava.
De árvore longínqua e solitária no meio da planície, passou a ser apenas uma ténue lembrança fugaz, e só não culminou em obsoleta ausência, porque nunca qualquer coisa dependeu apenas de si mesmo.
A única coisa que o irritava era quando tinha de explicar que não pretendia ser Deus, muito pelo contrário. Tinha sim, vergonha de ser apenas mais um, no meio de tantas divindades.

Tornou-se poderoso. De segredo em segredo desvendado, desejou engolir o sol. Que maior fonte de luz afinal. Tentou e só desistiu quando percebeu que não teria tempo. Dedicou-se então ao tempo.
Coitado… tanta coisa para lamentavelmente concluir que é sempre tarde demais!

Prosseguiu erecto no seu perfeito mundo perfeito.
Lembrava conversas com amigos há muito desaparecidos, entre eles, Marco Aurélio, imperador romano… que lhe dizia que não havia melhor retiro que o próprio espírito. Porém, foi sozinho que entendeu que só podia ser verdadeiro sendo só, porque a verdade mata e destrói. Todos querem a verdade desde que lhes mintam.

Ele era só.
Ele estava bem. Não sofria dos males do Homem – esse enfermo Deus infinito.

Assim é fácil. Assim nada custa, nada falha. Eis o culto do nada!

Porque difícil é ser. É quando o coração se liberta das amarras e tudo nos falha. Difícil é querer. Esticar o braço e não alcançar.
Crítico é abrir as mãos e perceber que não seguram aquilo que mais se deseja, que tudo se esvai por entres os dedos para o desespero da garganta.

Fodido mesmo, é sentir em vez de pensar.

Portanto, o que pode sentir aquele que:
Se cala, porque tem pouco tempo para falar tudo aquilo que lhe vibra no sangue;
Se modera no beijo, porque também essa conivência implora por tempo e não quer saber da consequência;
Se abranda no abraço, para que este não se torne demasiado quente e adormeça aquilo que não pode no tempo que há;
Outra coisa não lhe resta que não acenar em vez de amar.

E é quando começar se torna inconjugável, que sobra dizer de voz apagada “tenho saudades de ti”.


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