sábado, setembro 16

Da vida que se veste à que se despe

Alguma vez pensaste, no que fica daquilo que nunca fica?
Gostavas que eu te dissesse o que acho?

Tantas perguntas, não é… acho que serei sempre a tal criança para sempre, é o que é.
Tempo houve para me entristecer, quando dei conta de que as pessoas haviam perdido a faculdade de audição. Quando percebi que poucos eram já aqueles que ainda queriam ouvir uma voz diferente, por muito pouco diferente que fosse da sua.
Deixei de me entristecer. Afinal… o que é que eu tinha a ver com isso! Nada? Tudo?
Percebi e decidi que não era triste que me devia sentir, mas sim, fazer o impossível se necessário, para não ficar surdo, com o excesso de ruído à minha volta, até sentir esse estrépito como mera retórica que, é e que sempre foi.

Ainda assim, nunca mais esqueci aquele rapaz da Rua Augusta.

Eu costumo falar em natureza humana, como se realmente houvesse mais que uma natureza. Não há. Nós, humanos, não temos natureza. Somos a natureza, a única que conhecemos e da qual se pode falar.
Mas, e se alguém me vislumbrar a conversar com um fungo ou a tocar com intimidade numa pedra polida ao sol, o que irá pensar de mim?
Serei eu o arrogante egoísta que fica uma das vinte e quatro horas do dia, a olhar em perfeita letargia para um curso de água que corre como pode, por entre sulcos na terra que, a devora também como pode?

Pouco interessa aquilo que podem pensar de mim. Interessa-me mais aceitar que tudo não passa de um frívolo ímpeto de presença, e foi com um determinado filósofo do séc. XIX, que aprendi que o egoísmo é por natureza ilimitado.

É de Fernando Pessoa, o que passo a citar: “O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo”

Voltando à pergunta no início - o que fica daquilo que nunca fica?


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